Thursday, October 04, 2007

LANÇAMENTO

Foi no dia 2 mas ainda estou de ressaca!
O dia mais longo ... dos últimos dias!
Comecei a ser entrevisrado pelo Francisco José Viegas para o programa Escrita em Dia (oiça aqui) ao fim da manhã. Voltei para almoçar em casa e depois fazer uma soneca mas ...é o dormes.
Nervoseira até às 8 da noite hora a que a que me sentei à mesa para um belo jantar oferecido com toda a simpatia e melhor hospitalidade pelo Presidente da Fundação das Casas Fronteira e Alorna, Fernando Mascarenhas. Garganta apertada e vontade de que o jantar fosse eterno.
Mas não foi. Às 9 começaram a chegar pessoas. Fotografias, entrevistas, mais fotos e de repente estava ali diante de 180 pessoas a falar.
Foi um êxito!
Eis, escrito na passada aquilo que mais ou menos tentei dizer:

"Não posso deixar de começar pelos agradecimentos.

Em primeiro lugar à Fundação das Casas Fronteira e Alorna na pessoa do seu presidente.

O agradecimento é extensivo a todos os membros da família Alorna aqui presentes muitos dos quais me deram inestimáveis ajudas para concretizar o projecto deste livro.

Para a editora D. Quixote, e a todos os que com o seu trabalho contribuíram para eu poder estar agora aqui a falar sobre “O Último Távora”, a equipe , e para a Maria João aqui ao meu lado que agarrou o livro num fim de semana com um irresistível entusiasmo.

Finalmente quero agradecer a todos os presentes. São amigos, conhecidos, e até desconhecidos que hoje vão deixar de o ser. Todos ajudaram a que este lançamento fosse um sucesso e vão ajudar a que o meu livro seja um êxito.

Esqueci-me de referir os meus amigos do golf a quem também quero agradecer. Espero que eles possam dizer depois de lerem o livro – O Norton escreve melhor do que joga – sei que não é difícil, mas sempre é melhor que dizerem: Bolas, escreve tão mal como joga.
Falando de desporto não posso esquecer os amigos que deixaram de ver o Sporting para me ver a mim. E perdoar aos que preferiram o jogo...

Por falar em êxito… chegou a altura de vos apresentar o livro. É o primeiro passo … na senda do êxito.

Para os lançamentos habitualmente depois de muito pensar convida-se um apresentador a quem cabe a tarefa de fazer uns elogios ao autor e à obra, outras vezes só o autor, certos casos haverá em que nem uma coisa nem outra. Enfim, tarefa ingrata que por vezes pode acabar numa irresistível sonolência colectiva.

Desta vez, por acordo pacífico entre os membros desta mesa, ficou estabelecido que não havia apresentador, ou seja … cabe-me a mim dizer bem do meu próprio trabalho o que farei com gosto, sem vergonha nem cerimónia. Seja o que Deus quiser!



“O Último Távora” lê-se de um fôlego. Como se fosse um romance.

Quem o diz é quem já o leu e isso é reconfortante.

Mas não foi fácil.

Estive várias vezes para abandonar o projecto já com grande parte da investigação feita. A certa altura o livro estava uma seca. Não passou no crivo das minhas irmãs que sempre são condescendentes com o irmão mais novo. E a Cristina, minha mulher, escritora de imaginação e talento, essa não quis de saber de mais novo ou mais velho: cilindrou-me.

Já não sei como me surgiu a ideia dos diálogos. O meu livro não tinha de ser um trabalho académico, nem um exame de história ainda que pretenda ser rigoroso. Por isso achei que tinha toda a liberdade de dar-lhe a forma que muito bem entendesse. E qual não foi o meu espanto quando percebi que os diálogos não só me saíam com facilidade como continham neles aquilo que me levaria páginas a explicar se a linguagem fosse outra: tudo ficou claro e simples em benefício dos leitores sem assassinar a História. Claro que isso só foi possível depois de ler uma e muitas vezes a correspondência abundantíssima e a enorme quantidade de livros que consultei. Uma trabalheira, agravada pelo facto de ser pouco metódico. Uma espécie de puzzle.

Mas dominadas que foram as fontes, os diálogos saíram fáceis e verosímeis e sem esforço o leitor percebe as grandes linhas do contexto histórico. Tudo ficou mais leve. E em muitos casos reproduzo frases que não tendo sido ditas foram escritas pelas personagens que pus a dialogar.




Mas o que é o livro?
Não é só uma biografia.

É a história de um homem invulgar. Invulgar em primeiro lugar pelas circunstâncias da sua vida.

- Era bebé de colo quando a casa onde vivia é destruída pelo terramoto de 1755.

- Três anos depois, o processo dos Távoras leva-lhe Avós tios e primos de uma maneira horrorosa e afasta dele durante dezoito anos a família mais próxima.

- É nesse tempo tutelado por um dos homens mais célebres da História de Portugal, e ao mesmo tempo o carrasco da família: o marquês de Pombal.

- Por outro lado foi protegido pela amizade de outro homem que ficou na memória dos portugueses, e uma surpresa completa na minha investigação: o conde dos Arcos imortalizado por Rebelo da Silva na sua também “Última Corrida de Touros em Salvaterra” que por casualidade foi em Samora Correia ali ao pé. Salvaterra é nome mais bonito que Samora Correia.

- Participa como militar na campanha da Guerra das Laranjas em que perdemos Olivença.

- É envolvido de alguma maneira em três acontecimentos que marcaram o princípio do século XIX:
A conspiração dos nobres
A conspiração de Mafra – Carlota Joaquina que era traquina.
Os tumultos ou a revolta militar de Campo de Ourique.

- É nomeado e desnomeado Vice Rei do Brasil

- Perde em circunstâncias arrepiantes os seus dois filhos. O drama pessoal é aumentado pelo facto de ficar assim privado de perpetuar no seu sangue a casa que herdara dos Pais e Avós.

- Em 1808 deixa Portugal à frente das forças portuguesas que se vão juntar aos exércitos de Napoleão.

- Entra em Portugal com o exército de Massena na 3ª invasão francesa, esbarrando nas defesas das Linhas de Torres.

-Volta para França condenado à morte pela justiça portuguesa e finalmente, integrado na Grande Armée vamos encontrá-lo como governador militar de uma cidade da Lituânia, Mogilev, uma praça forte.

- Depois são os quarenta dias da penosa retirada em que o maior inimigo foi o implacável Inverno Russo.


Creio que hão de concordar tratar-se de uma vida invulgar.
Para mim foi uma investigação apaixonante.

Mas há mais. Alorna foi um homem maltratado.

Era por sua natureza generoso, cheio de vontade de servir a monarquia e o seu país. Mas todas as culpas lhe caíram em cima. Despertou ódios – particularmente o ódio de classe.

Foi envolvido pela intriga: tanto em Portugal como depois ao serviço dos franceses, intrigas urdidas pelos seus próprios subordinados e companheiros de armas portugueses:
É altura de lembrar que Alorna não foi sozinho para França. Revelo neste livro, tema delicado e envolto no esquecimento, que com ele foram muitos oficiais superiores da Grande Nobreza e não só, que viriam mais tarde a abraçar a causa constitucional e liberal: Pamplona, marquês de Loulé, marquês de Valença, Cândido Xavier – braço direito de D. Pedro IV no cerco do Porto - entre outros.

Ódio, Intriga. Só falta em relação à capa do livro uma palavra: tragédia.

Alorna, protagonizou-a e de que maneira.

Parecia de facto que uma maldição o perseguia, a maldição que fulminara os Távoras, que sobre ele se foi renovando e que como uma Hidra de sete cabeças o foi embuscando em cada passo da sua vida.


Finalmente vamos perceber que “O Último Távora” não é só um título apelativo para chamar a atenção dos ávidos consumidores de teorias da conspiração.

Vou apenas referir dois factos.

Por um lado foi o marquês Pai quem conseguiu que os Távoras viessem a ser ilibados. Não quis sair da prisão enquanto não tivesse garantia de o caso ser re-aberto. Por outro, Pai e filho empenharam-se em proteger e tentar recuperar a posse dos bens para o filho do Duque de Aveiro, outro Távora.

Mas mais impressionante é que quase 50 anos depois das execuções o marquês de Alorna ainda era atacado por ser Távora.
Leio na íntegra uma passagem de carta anónima escrita em 1802 e que refiro no livro:
“O espírito perverso, que fez cúmplice no horroroso e sacrílego atentado cometido contra o rei D. José ao avô do marquês de Alorna, renasce neste moço imprudente e ímpio. A lembrança da execução com que a justiça daquele monarca rectíssimo deu ao seu povo uma satisfação pública dos infames crimes dos seus parentes, mas que ele considera como crueldade e tirania, desperta no seu coração o desejo de vingança. E a soberba com que olhando como igual a casa de Bragança, repugna dobrar o joelho ao seu príncipe, e faz conceber-lhe o intento de destroná-la”.

Mas último tem a ver com fim.

Com Alorna, morreu também em Portugal uma época.

A longa batalha que começara com o marquês de Pombal, alimentada depois pelos ventos da Revolução Francesa estava decidida quando Alorna morre. Mas foi para ele demasiado dolorosa. As grandes mudanças político-sociais são terríveis para quem nelas participa com intensidade.
Para Alorna foi dilacerante. Ele tinha ao mesmo tempo um pé na tradição aristocrática enquanto o outro assentava numa educação das Luzes. Dominava-o uma ânsia de servir no sentido da responsabilidade social e da utilidade pública. Era amigo de Gomes Freire não esqueçamos, ainda que não fosse maçon.

Acabou porém, sozinho, abandonado pela sua classe e desprezado pelos partidários das ideias constitucionais, varrido pelos chamados ventos da História.

E com ele acabou o Antigo Regime de que os Távoras foram um dos últimos e máximos expoentes.

Por isso, e independentemente dos argumentos genealógicos, discussão em que não pretendo entrar, foi, para mim, “O Último Távora”


Finalmente quero dizer que em alguns aspectos o livro deixa portas abertas à interpretação de cada um. E algumas coisas não ficam totalmente explicadas. Talvez que um dia novas fontes, arquivos ainda por explorar nos venham esclarecer.
Mas há explicações que estão escondidas na própria natureza dos homens.
A esse propósito há uma questão que muitos já se colocaram a propósito das Invasões Francesas e do percurso de Alorna e que tem a ver com uma palavra dura e feia, traição.

Leiam o livro e talvez no fim lhes custe, tanto quanto me custa a mim, proferir essa palavra traição.

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Não vejo ninguém a dormitar e acho que consegui dizer bem do meu livro. Não me saí mal.

Muito obrigado."
Tal qual. Foi assim, a Zita Seabra que me desculpe o plágio...
Quando tiver ponho fotos.

3 comments:

Joao said...

Ainda bem que alguém se lembrou de escrever sobre o Marquês de Alorna!Já não era sem tempo!Só para referir uma das suas principais contribuições que parece que tende a ser esquecida:o registo que mandou fazer da Serra das Talhadas, em Vila Velha de Ródão. Foi por lá que os esfarrapados franceses entraram na 1ª invasão, uma posição estratégica que até o General Foy reconheceu que convenientemente defendida teria impossibilitado a travessia do Tejo por parte do exército imperial. D. João VI ordenou que se deixasse entrar o inimigo sem oposição... Alorna estava certo e a sua clarividência de mandar fortificar a posição das Talhadas demonstram o seu espirito visionário. Mas, tal como hoje, foi o inimigo interno que o destriuiu, não o externo.
Quanto ao livro... Soberbo!
Importava-se de autografar o meu exemplar?
Obrigado e continue!Ainda há heróis escondidos...
Abraço, João Nisa

José Norton said...

Obrigado JOÃO.
Com certeza que gosto de autografar o livro. Mas como?

Joao said...

Não tem prevista nenhuma sessão de autógrafos proximamente?